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:: ESOTÉRICO

O propósito é sincero
quando vem do coração


Ao ter que se deslocar de um templo a outro, o mestre e seus discípulos tiveram que atravessar um rio num trecho de corredeiras e onde não havia ponte. O único meio de transporte ali era um pequeno barco, conduzido por um velho barqueiro. A travessia da pequena comitiva de dez pessoas foi feita em três viagens, devido ao tamanho exíguo da embarcação.
Ao chegar do outro lado, o grupo sentou-se embaixo de uma árvore, antes de seguir viagem, e logo iniciou uma conversa. Um dos alunos citou a extrema habilidade do barqueiro – que com seu remo à mão percorria a borda do barco mantendo o equilíbrio do mesmo e com tal desenvoltura que era como se estivesse andando numa rua larga.
- Como ele conseguiu ter tanta destreza? Perguntou um deles. Quantos esforços foram necessários para chegar a isso? Perguntou outro aluno.
O mestre então explicou a eles que foi justamente a ausência da dúvida que deu essa tranqüilidade ao barqueiro. Foi o seu espírito tranqüilo que lhe concedeu essa liberdade. O amadurecimento das técnicas eliminou as suas dúvidas e por isso o seu espírito se manteu tranqüilo, o que lhe concede essa liberdade em seus afazeres.
- Mas, então, mestre o que determinou a habilidade do barqueiro? Foi sua longa experiência? Perguntou novamente o mais curioso dos alunos.
A ele o mestre respondeu: - A experiência é importante, mas não é determinante, disse. Assim como o barqueiro, um guerreiro precisa cuidar para que seu propósito permaneça inquebrantável, pois quando o homem tem um propósito firme nem os demônios podem impedi-lo de chegar ao fim. Enfim, o homem só não tem controle das ações externas advindas dos céus, mas, no que diz respeito às suas próprias ações, é o homem quem realiza sozinho sua própria vontade.
- Mas, mestre, então um barqueiro, mesmo experiente, pode deixar seu barco virar, se não for firme em seu propósito?
- Sim, respondeu o mestre. Quando o espírito não está tranqüilo, surgem inúmeras dúvidas e o homem fica indeciso. Se seus pensamentos estão em movimento, a interioridade do homem não está equilibrada, e ai ele comete muitos erros.
- Mas, enfim, como chegar a esse propósito firme, inquebrantável? Perguntou novamente o inquieto aluno.
A ele, novamente, o mestre respondeu, já se levantando para seguir viagem:
- O propósito é sincero quando vem do coração. Quem faz tudo com o coração, da menor ação à considerada mais importante, logo, liberta-se dos atos e palavras ignóbeis, das brincadeiras e divertimentos baratos e chega às ações férteis e convictas.

Texto de Célio Pires, sobre idéias do livro: “O Zen na Arte de Conduzir a Espada”, de Reinhard Kammer, Editora Pensamento.

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Para se chegar à meta fixada, à vitória

- A vida é uma luta incessante e requer estratégias para vencer; assim como é preciso discernimento para saber escolher com quem lutar e com quem se aliar, além de ter firme na mente a meta a ser alcançada. O homem de bem faz da sua luta cotidiana também uma conquista da paz. Ao alcançar o resultado que almejava a ele não se apega, logo, se levanta e, espantando a preguiça, segue em frente, inventando novos desafios.
Com essa preleção o sábio respondeu à indagação de um de seus alunos, que lhe inquiriu sobre qual seria a melhor escolha para se enfrentar os desafios do dia-a-dia. E continuou: - O vencedor, geralmente, é aquele que tem o conhecimento do terreno (a sua área de atuação) e dos homens (aliados e adversários), o resto é uma questão de cálculo. Mas, ressaltou: É preciso evitar a precipitação, a hesitação, o excesso de complacência e a irritabilidade.
- “Ganha a batalha, nunca te apegues ao conquistado, pois poderá se acomodar. O recomendável é, sempre, ter novas metas, pois novas paixões movem a vida pra frente”. – aconselhou.
Disse ainda que, aquele que se acomoda, seja na vitória ou na condição de derrotado, deixa-se dominar pela preguiça – uma doença da alma que se impregna no corpo e impede a mente de estar sempre desperta.
Para quem é mais audaz, o sábio recomendou o caminho da paz, que é o mais difícil, pois significa agir com sutileza e leveza, sem ira ou xingamentos. Um dos atributos deste caminho é ser flexível como o bambuzal, atravessar barreiras pelos flancos, não prejudicar a outrem deliberadamente, não buscar a vingança... E completou: - O homem de bem deve buscar a paz ativa e não contemplativa; ter a mente saudável, relaxada e desperta ao mesmo tempo; lutar sempre contra as fraquezas que descobrir em sim, para chegar, enfim, à meta fixada, ou seja, à vitória.

Texto de Célio Pires sobre idéias de Dugna Rimpoche, Sun Tzu, G.L. Gurdjieff



E pra falar com Deus?

Perplexo diante de tantas religiões, seitas e preceitos, o discípulo procurou o seu mestre e lhe inquiriu sobre uma dúvida crucial: Como falar com Deus?
- Qual o caminho? O que devo fazer? Subjugar meus desejos? Imolar meu corpo como o faquir? Isolar-me no silêncio do templo? Clamar aos céus? Meditar por horas seguidas?
O mestre respondeu a ele, citando episódios antigos:
- Quando Jesus quis falar com Deus, foi ao Monte das Oliveiras, afastou-se dos demais, postou-se de joelhos e orou: Pai se quiser afasta de mim este cálice; contudo não se faça a minha vontade e sim a tua. Um anjo lhe confortou e estando em agonia orou intensamente. Seu suor se tornou como gotas de sangue caindo sobre a terra.
- Quando Deus quis transmitir aos homens as bases morais de uma nova sociedade chamou Moisés ao topo do Monte Sinai: Toda a montanha do Sinai fumegava, porque Javé tinha descido sobre ela no fogo...E a montanha toda estremecia. O som da trombeta aumentava cada vez mais, enquanto Moisés falava e Deus lhe respondia com o trovão.
Mas e nós, pobres mortais, como chegar a Deus? Voltou a questionar o inquieto discípulo.
Ao questionamento o mestre indicou o caminho reto das orações. “Essa é uma das formas de se religar a Deus”. Mas alertou: “Orando não useis de vãs repetições. Não é pelo muito falar que será ouvido”.
Por fim afirmou que, quem tem fé e pede, a este Deus atende, pois os humanos, que são imperfeitos, sabem dar boas dádivas aos seus filhos, imagine Deus que é perfeito.


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Fixar a meta e a ela chegar sem fraquejos

O mestre do “quarto caminho” percorreu estradas antes não visitadas, interpretou grandes tradições religiosas e decifrou ensinamentos secretos. Com budistas aprendeu a ver nos homens seu carma, seu sofrimento e a inter-relações entre todas as coisas; com hindus entendeu que há níveis mais elevados de consciência; com os sufis sintonizou ser necessário estar no mundo sem ser do mundo. Entretanto, nasceu e morreu como cristão ortodoxo.
Foi músico, mestre de danças sagradas, atuou como espião. Enfim, viveu situações aparentemente comuns e outras mais complexas, confome a necessidade do momento. Para melhor entender a natureza humana, esteve próximo dos movimentos sociais, com o objetivo de desvendar o por quê do envolvimento hipnótico das massas pelos líderes.
A lição de tudo isso deixou escrito com o exemplo de sua vida e em livros que postergou. O homem deve lutar pelo seu auto- desenvolvimento, já que todos os humanos nascem com o mesmo direito de evoluir o seu interior.
Para ele todo “homem deve dominar sua preguiça e, inventando sem cessar novos compromissos, lutar contra as fraquezas que descobriu em si, a fim de chegar à meta que se fixou”.

O mestre do “quarto caminho” chama-se G.I. Gurdjieff. Leia mais sobre ele. “Encontro com Homens Notáveis” é seu livro mais célebre. (Texto Célio Pires).

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À nossa incompreensão damos
o nome de Deus ou de Ciência



O ser humano vive emerso no conflito e a religião, que poderia ajudá-lo a se liberar das dúvidas, quase sempre acaba confundindo-o ainda mais, pois entra com facilidade no campo da moral e impõe limites proibitivos, normas de conduta ou exemplificam com base na vida dos profetas as práticas tidas como “impraticáveis”. Daí, mais confusão, mais teoria e as prateleiras de livros religiosos crescem e crescem.
A dificuldade está na prática dos códigos de conduta das religiões. Ditos cristãos normalmente acham covarde e desprezível quem não reage a um tapa no rosto – mas quem prega o “olho por olho, dente por dente” é a religião judia, a quem Cristo veio suceder, mas não foi aceito em seu próprio meio, já que também era um judeu.
Há constante conflito entre o proposto pelos profetas e a prática religiosas. Como “perdoar aos inimigos”, coerente com a religião de paz proposta por Cristo ou a de consentimentos de Buda, é mais fácil e prático a retaliação, a vingança.
Em suma, religião é o reconhecimento e devoção a algo além da nossa compreensão, a crença no transcendental, no além da matéria. Ou seja, em tese, ser religioso nada teria a ver com normas de conduta, aspectos morais, ou seja, obedecer um código de regras – que, entretanto, impõem padrões até sobre a vestimenta dos fiéis.
Os dogmas vão sendo acrescentados e anexados às religiões e impostos como verdades religiosas, mas são, sim, normas de conduta, que prevalecem até mesmo sobre o exemplo deixado pelos profetas, mas servem para uniformizar um praticante, é, enfim, um uniforme religioso.
Andar de turbante ou de solidéu pode acrescentar o que, ao fato de se acreditar em um ser superior, em Deus? Mas aí vêm os profetas, os deuses encarnados, os mensageiros, os anjos e arcanjos, os transcendentes e os iluminados acrescer dados ao que se chama religião e normalmente os livros religiosos se tornam imensos, contraditórios e causam confusão pelas interpretações. Na Bíblia há um trecho em que Jesus diz que veio pela espada, em outro reage com ira, no episódio em que expulsa vendedores do templo - o que é totalmente oposto ao que fez e pregou, mas que podem ter justificados fatos históricos como as Cruzadas.
Enfim, religião, se fosse buscar explicações etimológicas teria sua raiz na palavra “religare” – que em rápidos termos poderia ser traduzida do latim como re-ligação do homem com Deus, o elo perdido, o fator mistério gerador do misticismo, da metafísica, da religião.
Logo, viria o cético, o agnóstico e o cientista perguntar, mas não é isso que a ciência busca? A explicação do mistério. Como se vê, diria o sábio chinês Lao Tse, religião e ciência são opostos complementares e não contrapostos ou concorrentes, seriam o yin e yang taoísta, assim como o dia e a noite, o homem e a mulher. Basta fazer o cientista e o religioso, o mulçumano e judeu, o evangélico e umbandista entenderem a questão. Daí essa coluna.

Texto de Célio Pires, referência: I Ching (prefácio), o Livro das Mutações (Oráculo Chinês), Editora Renes.

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O invejoso sofre com o êxito de outrem


Ao contrário do que possa parecer, as pessoas cheias de maldade/ inveja, que as vezes atravessam em nosso caminho, com suas emoções obscuras e violentas, são na realidade “tesouros preciosos”, segundo afirmou o mestre budista aos seus iniciados – sendo logo questionado, pois o mais comum é ver este tipo de pessoa como empecilho.
Ao aluno, o mestre respondeu que os momentos nos quais somos provocados oferecem oportunidades de aprender e despertar a tolerância frente à provocação e podem nos ensinar a ter a verdadeira paciência.
O certo, disse o mestre, é que mesmo sob provocações rasteiras, podemos nos manter firmes em nosso eixo, vivenciando emoções intensas, mas sem nos deixar contaminar por emoções alheias.
A inveja e o ciúme são expressões da ausência de empatia e quem cultiva tais sentimentos não tem como se conter, e assim fala e age contra o invejado. Para realizar-se em sua pequenez necessita que a pessoa provocada entre no seu jogo, uma forma de amenizar a sua própria “dor”, pois sofre com a felicidade ou o sucesso alheio.
O mestre ensinou que quem quiser seguir o caminho budista (que tem tudo a ver como o ensinamento de Cristo) deve aproveitar este momento para evoluir espiritualmente, reagindo inversamente ao esperado, num treinamento de humildade e altruísmo.
- Sem se submeter, ofereça a este tipo de pessoa a vitória, pois cresce quem encontra força em si e não se deixa levar pela influência negativa dos que navegam no rio sujo da inveja e enxovalham-se neste tipo de êxito.
Por fim, disse: este é o caminho mais difícil, mas é opção para os que preferem a energia sutil e já perderam o apetite para com a energia grosseira, ou seja, o revide.

Referências do texto: Oito Versos de Treinamento da Mente, de Gueshe Langri Tangpa (Tibete/século 11), vide O Livro das Emoções, de Bel César, Editora Gaia, nas melhores livrarias

Mistérios da Quaresma

* Por Mário Eugênio Saturno
Nada é mais belo e misterioso que nossas tradições, nossa cultura, nossos ritos. Nascemos assistindo e praticando e não pensamos em sua origem e evolução, nem sequer imaginamos o quão antigas são. Assim acontece com a Quaresma, palavra importada à nossa língua que já assimilou um significado próprio.
Quaresma, do latim, quadragésima, é um período de quarenta dias que vai da quarta-feira de cinzas até o domingo da Páscoa. É um período de penitência, jejum, oração e conversão. A prática das cinzas já era utilizada pelos judeus para expressar penitência e pesar. O número quarenta sempre foi associado à renovação, ao renascer. E qual a origem esse significado?
Sabemos que a primeira referência ao número quarenta foi o dilúvio purificador que durou quarenta dias e quarenta noites (Gênesis 7,17), escapando Noé e seus descendentes. Depois vemos que os egípcios embalsamaram o corpo de Jacó em quarenta dias (Gênesis 50,3), conforme o costume egípcio.
Ao encontrar Deus na montanha, Moisés ficou quarenta dias e quarenta noites (24,18). Quando recebeu as duas tábuas da aliança, Moisés ficou outros quarenta dias e quarenta noites com Deus (Êxodo 34,28). Os enviados de Moisés à Terra Prometida também demoraram quarenta dias (Números 13,25). E Moisés só inicia a invasão, quero dizer, a ocupação da Terra Prometida quarenta anos após fugir do Egito (Deuteronômio 1,3). Cada dia corresponde a um ano conforme está explicado em Números (14,34).
Elias foi ao Horeb andando quarenta dias (1 Reis 18,8), como Moisés e, mais curioso ainda, ambos estavam presentes na transfiguração de Jesus. Outro profeta, Jonas, anunciou a destruição de Nínive em quarenta dias (Jonas 4,3), não sem antes passar três dias engolido por um peixe por recusar a missão, afinal, a Babilônia arrasou o reino de Israel.
Jesus, antes de iniciar sua vida pública, passou pelo ritual de purificação, foi ao deserto e jejuou quarenta dias e quarenta noites (Mateus 4,2) para preparar-se para sua missão. E depois, ressuscitado, permaneceu quarenta dias com os apóstolos (Atos 1,3) ensinando-os, renovando-os para a nova fase da missão.
E por que quarenta? Até a ciência moderna utiliza o termo quarentena para determinar o isolamento por perigo de contaminação de doenças. Os astronautas ficavam de quarentena (só que de 21 dias) quando voltavam da Lua. De onde vem esse número? Quarenta é o número de semanas que demora para a gestação de um ser humano, o tempo que levamos para adquirir vida, desenvolver um organismo apto a sobreviver. Coincidência? Creio que não!
Assim, quarenta semanas ou dez meses lunares (daí também a importância do número dez para a religião judaico-cristã, como os dez mandamentos, um para cada mês?) é o tempo para recebermos (de Deus) uma vida nova, os nossos bebês, purificada da maldade humana, um livro em branco para ser escrito. E a escrita acontece através de um ambiente tranqüilo e acolhedor, do amor recíproco e exclusivo dos pais, da alegria, da paciência e da perseverança.
De fato, a nossa vida é uma quaresma repleta de sofrimentos. Mas temos em Cristo um alívio para o nosso fardo, um descanso consolador e repositor de nossas energias e coragem (Mateus 11,28-30). A vida, por mais terrível que seja, pode ser muito boa se formos humildes e soubermos adequar nossas ambições ao possível. O sofrimento está em não aceitar o impossível de ser mudado (inconformidade inútil) e em ficar desanimado para mudar o possível (conformidade preguiçosa).
Assim, quem crê em Deus deve aceitar os reveses da vida e lutar para uma Páscoa (passagem) humana, tal qual a de Moisés: da escravidão à liberdade, da pobreza à igualdade, do ódio ao amor. Também a Páscoa de Cristo, pela sua morte, apagou nossos pecados e sua ressurreição nos trouxe vida nova, e vida em abundância (João 10,10). Esse período deve servir para avivar nossa memória e despertar em nós a coragem necessária para viver os ensinamentos de Jesus Cristo. E, se esses profetas citados acima cumpriram sua missão, também nós podemos.

Mário Eugênio Saturno é tecnologista sênior da Divisão de Sistemas Espaciais do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), Professor do Instituto Municipal de Ensino Superior de Catanduva (www.fafica.br) e congregado mariano. (Email: mariosaturno@ uol.com.br)






A felicidade é um bem comum,
que se conquista individualmente


Muita gente quer mudar o mundo e escolhe o caminho político, através da revolução social – só que a experiência da história demonstra que por essa via pode-se até mudar o Estado, mas não muda as pessoas, tanto que muitas revoluções redundaram-se em fracassos, por causa dos mesmos vícios, que acabam reaparecendo nos novos mandatários.
Quem quiser “mudar o mundo”, deve começar mudando a si mesmos, pois se alguém praticar continuamente o bem, a virtude se preservará, assim como uma família unida tornar-se frutuosa e exemplar - se essa atitude positiva for estendida aos amigos e vizinhos, logo se terá uma comunidade mais feliz e harmônica, o que, certamente, influenciará até mesmo o município e quiçá o Estado.
Assim também se dá com a felicidade. Quem se torna uma pessoa melhor, e portanto mais feliz, melhorará o mundo a sua volta. Sozinho é mais difícil ser feliz, portanto, lute para tornar o seu ambiente de trabalho um lugar mais harmônico. Fazer isso é algo até simples, basta ter boa vontade. Por exemplo: se tiver que julgar alguém, julgue primeiro a você mesmo; se tiver que fazer mau juízo da sua família, do bairro onde reside ou até do seu país – reflita, pois você é parte do que critica.
Enfim, é só não fomentar a intriga e a divisão e você já estará fazendo a sua parte. (Raul Los)




O mistério de Deus

Afinal, quem é Deus?
A pergunta pegou o monge de surpresa, pela sua simplicidade e por ser também a mais difícil de responder, mesmo para quem se dedica com afinco à questão religiosa, ano após ano.
Afirmou ele que céticos de todas as estirpes já traçaram mil teorias sobre a inexistência divina, assim como, todas as religiões, sempre, tentaram explicar quem é Deus, sem que chegassem a um fim objetivo – “O que é plenamente justificável, já que é difícil entender racionalmente aquele em que quase toda a humanidade acredita, mas ninguém o vê, nada ouve, nem o toca”.
- Eu diria que Deus é o responsável pela claridade e pela escuridão, é eterno, contínuo e inominável. É a forma sem forma, a imagem sem imagem. É fugidio e inatingível, não tem face nem costado.
Diante de tal mistério – concluiu o monge – é melhor parar por aí.
– Apenas aconselho a quem tem fé aceitá-lo, afinal, quem assim age terá melhores meios de enfrentar os percalços da vida. Pela minha experiência digo que aceitar Deus é o princípio para conhecê-lo, ou pelo menos para desembaçar o caminho à frente.

Referência do texto: Livro do Tao, capítulo 14, de Lao Tse (versão do autor).




Não estar bem consigo é sinal de alerta

- “Não estou bem comigo mesmo”.
Quando alguém assim se expressa, pode não perceber, mas poderá estar querendo dizer: “Não estou bem com Deus”.
E isto se dá por um único motivo: Somos todos integrantes do todo, da energia superior, queiramos ou não.
O descontentamento significa falta de sintonia da parte com o todo – é como um pequeno parafuso que espana e vai causando ranhura na máquina.
Quando uma pessoa não está bem consigo próprio, sem que saiba o motivo, pode ser que esteja em dissonância com o seu íntimo, com
seu âmago, com sua mais recôndita força vital, ou seja, a sua consciência.
E isto não se torna claro à pessoa por ela estar realizando atos (mesmo que pequenos) ilícitos ou imorais, mas que de alguma forma lhe agrada os sentidos e com os quais têm algum tipo de identificação, apego ou prazer.
Assim como o louco, que tem a consciência agitada e por isso não cumpre nenhum dever, aquele que está não está bem consigo mesmo pode não estar cumprindo seu dever para com Deus. Para quem não crê, pode se dizer que esteja se afastando da virtude, da prática do bem.
O sábio diz que, neste caso, a pessoa tem servido apenas aos seus próprios desejos, ou instinto, afastando-se da sua consciência, que então lança um sinal de alerta, causando desconforto interno, deixando o coração intranquilo.
O sábio diz que todo ser vivo é perfeito, mas devido aos apelos da luxúria e às possibilidades de riqueza fácil torna-se sujeito à contaminação e, assim, pode degradar-se aos poucos. Sem perceber, poderá se acomodar naquilo que num primeiro momento é apenas uma simples expressão: “Não estou bem comigo mesmo”.


 


Religião e religiosidade

O jovem, de bom nível social, pôs-se a esbanjar o dinheiro dos pais em farras e festas e também o distribuía aos mendigos. Na desesperada procura de sua vocação foi fundo na vida mundana, buscando experiências novas nessa via, não economizando em devaneios, divagações e em idéias utópicas.
É claro que passou a ser um tormento para o pai, que o via apenas como perdulário e vagabundo, pois além de gastador não ajudava nos negócios da família.
E assim ia, até que, certa vez, passou por experiência mística, quando estava em uma capela em ruínas e pensava dedicar sua vida a Deus. Teve a sensação de que uma imagem de Cristo fizera um movimento e que uma voz lhe dissera aceitar o seu comprometimento. Teve, assim, a convicção de que uma missão transcendente lhe aguardava. De imediato, passou a cumprir o prometido, dedicando-se à restauração daquela velha capela.
Tal atitude foi vista pelo pai como mais uma afronta, principalmente por ele estar gastando ali o seu dinheiro e, por isso, foi aprisionado e recebeu deste severos castigos.
Diante da situação e decidido a seguir a vocação que lhe foi revelada, foi até seu pai completamente nu, após a mãe o ter libertado do castigo, e a este entregou as roupas e um pouco de dinheiro que ainda possuía. Disse-lhe que devolvia tudo o que ao pai pertencia, informando que, a partir daquele momento, se dedicaria plenamente a Deus. E assim o fez.
Outros jovens ricos o seguiram em sua peregrinação, também completamente desprovidos de bens, passando a viver, como ele, da caridade do povo. O jovem passou a ser visto pelas famílias abastadas como uma péssima influência, pois temiam o exemplo do seu desprendimento material mais que a qualquer outra coisa.
O jovem entendeu, então, que a sua pobreza representava, ao mesmo tempo, uma força e uma fraqueza - uma contraposição que se dava também entre a religião oficial e aquela religiosidade bruta que passou a representar, já que o clero o via também como uma ameaça.
A sua pobreza e a falta de pompa de seus seguidores desnudavam todo o luxo da religião oficial e demonstravam que a fé nada tem a ver com riqueza e circunstância, e o quanto Deus está acessível, independentemente das catedrais de altares folheados a ouro.

O jovem em questão é São Francisco de Assis e a referência do texto é do escritor Admilson L. Botto, vide revista Planeta 119.

 

Para falar com Deus

O jovem estudioso dos textos sagrados, certa noite, quando já estava na cama, pôs se a meditar sobre as tentativas humanas de se comunicar com Deus. E isto lhe trouxe certa inquietação, tirando-lhe o sono. Pensava ele: Qual seria o melhor caminho para se falar com Deus? – “Bem, poderia se seguir o conselho das religiões orientais, ou seja, a meditação (“mente quieta, espinha ereta e o coração tranqüilo”). Ou, quem sabe, a melhor fórmula não seria invocar o Divino do alto da montanha? Ou, talvez, fazer como os hare-krishina: tocar sinos e bater tambores pelas ruas da cidade. Não, o caminho do faquir, imolando o corpo, como os hindus, talvez fosse o mais rápido?”, divagava ele.
Sem conseguir abandonar os pensamentos, continuou matutando e logo se lembrou do Velho Testamento, do texto em que Deus se fez presente a Moisés no Monte Sinai e lhe transmitiu as bases morais de uma nova sociedade: “Toda a montanha do Sinai fumegava, porque Javé tinha descido sobre ela no fogo... E a montanha toda estremecia. O som da trombeta aumentava cada vez mais, enquanto Moisés falava e Deus lhe respondia com o trovão”.
- Não! Talvez a fórmula mais eficaz seria alcançar Deus através da humildade, como diz a canção popular, seguindo o ponto de vista hindu: “ficar a sós, apagar a luz, calar a voz, aceitar a dor, comer o pão que o diabo amassou. Me ver tristonho, me achar medonho e apesar de um mal tamanho alegrar meu coração”.
Já atordoado com a insônia e com aquela idéia, lembrou-se ainda de outro texto bíblico, o que fala da Torre de Babel – quando da pretensão humana de chegar a Deus por vias transversas. O homem, com a sua fé cansada, achou que poderia se comparar a Deus, alcançando a morada divina. Disseram: “Vamos construir uma cidade e uma torre que chegue até o céu, para ficarmos famosos e não nos dispersarmos pela superfície da terra”.
Os desentendimentos foram muitos e o empreendimento “grandioso” sucumbiu. A partir de então, o homem se dividiu e não mais se entendeu plenamente.
O jovem, por fim, concluía ser grande a sua pretensão, de querer “falar” com Deus. – “Isso dever ser coisa para iluminados e santos”. Em seguida, para afastar de vez a insônia que já o incomodava, passou a rezar e a orar ininterruptamente até que conseguiu se acalmar e alcançar a paz que lhe havia fugido há pouco.
Já meio que dormindo entendia que o caminho reto da oração ainda era o mais curto para se aproximar de Deus, ou seja, para se ter paz no coração.

 

OLHAR PARA DENTRO
A sabedoria do velho mestre chinês Lao Tsé, que viveu 600 anos antes de Cristo, é transcendente porque mostra que a ganância, por exemplo, sempre corrompeu o homem, assim como a aparência das coisas sempre lhe causou impacto desvirtuador. No capítulo 13 de seu livro aborda esse tema com propriedade e a atualidade impar. Veja o que diz:

“As cores do mundo podem ‘cegar’ o homem.
Os sons em excesso podem também ensurdecê-lo.
Os sabores corrompem o paladar.
As corridas de cavalos desencaminham qualquer um, assim como a busca da riqueza fácil acaba por levá-lo a cometer o mal.
Por isso o homem que buscam agir com sabedoria, valoriza aquilo que lhe é interior e não se ilude com desejos artificiais”.
Se ocupam do ventre e não do olho

Versão livre de Célio Pires.

 

SANTOS SÃO SÃOS
Por Célio Pires

santos são seres sinceros
simples
sensitivos
acreditam no inexistente
no etéreo, no permanente
santos não são materialistas
são seres especiais
santos não são geniais
são apenas seres
servis sem serem serviçais

santos são sãos de alma
sem culpas
sem máculas
são caras legais
que não se vendem
aos vis metais
santos são solitários
mas dividem-se com os demais
dão mais do que têm
e sempre lhes sobram mais

santos são como milagres
acontecem todo dia
sem que os percebam
eles são seres de tez serena
exemplos mortais
que se vão
mas ficam no coração dos demais

 


 

 


 


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